Hollywood fatura alto com Keanu ‘John Wick’ Reeves

Thalles Rodrigues

Ninguém esperava que “John Wick” (ou “De volta ao jogo”, como foi chamado no Brasil) fizesse tanto sucesso após sua estreia em 2014. Keanu Reeves (“Matrix”) vinha de dois fracassos no gênero de ação e parecia aceitar uma lenta decadência ao segundo escalão. Mas a história simples, objetiva e cheia de estilo de um ex-assassino em busca de vingança conquistou críticos, quadruplicou seu pequeno orçamento e lentamente ganhou status de cult entre o público.

Com o sucesso, o que parecia uma pequena obra com pequenas pretensões se transformou em uma franquia — “Que surpresa!”, disse ninguém. “John Wick: Um novo dia para matar”, que estreia nesta quinta-feira (16) no Brasil, prova que o personagem pode até querer a aposentadoria, mas tem energia para continuar na ativa por um bom tempo (prova também que a distribuidora reconhece que errou em não usar o nome original no primeiro, ao mesmo tempo em que insiste em subtítulos genéricos, mas eu divago).

O roteiro de Derek Kolstad (que tem a criação do personagem como praticamente a única menção válida de seu currículo) expande o universo que até foi apresentado no primeiro filme, mas nunca saiu das sombras. Esse era, aliás, um dos principais trunfos do longa. A história podia ser simples — gângsteres matam cachorro de cara durão. Cara durão busca vingança. Vingança é atingida após muitos tiros e sangue —, mas dava pistas de um mundo extremamente interessante, sem se preocupar em dar qualquer resposta.

Common vive um antigo colega e novo rival de Wick no filme (Foto: Divulgação)

Common vive um antigo colega e novo rival de Wick no filme (Foto: Divulgação)

“Um novo dia para matar” joga uma luz sobre grande parte do que ficou escondido no antecessor, enquanto constrói algo ainda maior — mesmo que a trama seja ainda mais simples. Obrigado a pagar uma antiga dívida a um perigoso mafioso, Wick deve voltar à vida de matança que deixou para trás, e se vê dividido entre uma nova vingança e as restritas regras da sociedade secreta da qual um dia fez parte.

O enredo serve como desculpa para a explorar mais a existência da organização, personificada no primeiro filme como o misterioso hotel que hospeda o assassino. Tudo a seu respeito expõe de forma refinada o charme de tradições seculares inseridas sem esforços no mundo moderno. O contraste entre o antigo e o novo, as ruínas de Roma e as obras arquitetônicas de Nova York, são tema recorrente.

O exagero da obra é consciente, mas força a mão às vezes. Em certos momentos, é difícil não pensar que pelo menos um terço da população mundial deve ser constituída de assassinos altamente treinados, uma impressão que aumenta com a introdução de uma segunda ordem, formada pelos mendigos da metrópole americana.

A novidade pelo menos serve para a tão aguardada reunião de salvador e mentor da trilogia de “Matrix”. Laurence Fishburne, o Morpheus dos filmes das irmãs Wachowski, troca os finos ternos, coletes e óculos redondos por trapos para viver o líder dos sem-teto matadores, em uma cena que deve fazer muitos sabichões darem risadas espertinhas nas salas de cinema.

Laurence Fishburne troca os ternos finos de Morpheus por trapos (Foto: Divulgação)

Laurence Fishburne troca os ternos finos de Morpheus por trapos (Foto: Divulgação)

Se o aumento de escala da história compromete um pouco de sua efetividade, a ação deste segundo capítulo mostra que nem tudo precisa perder qualidade para aumentar. As sequências de tiros e gun-fu (apelido dado ao estilo de artes marciais com armas de fogo utilizado por Wick) estão ainda melhores. Por muito tempo, “parecer com um vídeo game” não era bom sinal para um filme. “Um novo dia para matar” inverte essa impressão.

Muito mais que uma questão de contagem de corpos, que deve ser superada ainda no primeiro terço da continuação, a ação está mais inteligente e irônica. A cena em que Reeves troca tiros silenciosos com o rival igualmente letal vivido pelo rapper Common em uma estação de trem lotada enquanto ninguém repara merece entrar para a lista de momentos clássicos do gênero.

É difícil imaginar Wick interpretado por outra pessoa que não Reeves. Aos 52 anos de idade, a raiva contida do personagem permite ao ator mostrar que sempre foi subestimado ao longo de sua carreira. A paz interior transmitida pelo ator em quase todos os seus papéis já o prejudicou, mas é a característica marcante em seus principais trabalhos e, em suas mãos, o assassino se transforma em uma força irresistível da natureza.

O terceiro e inevitável capítulo da franquia promete colocar este homem em rota de colisão direta com todo o resto do planeta. Parece até injusto, mas, considerando que o homem em questão é John Wick, é difícil determinar quem sai em desvantagem.

Ah sim, ele está acompanhado de seu cachorro. Já sabemos para quem irão as apostas.

Sim, o cachorro é novo, mas o homem é o mesmo (Foto: Divulgação)

Sim, o cachorro é novo, mas o homem é o mesmo (Foto: Divulgação)